A MISSÃO DE ANDRÉA por Sérgio da Costa Ramos

Andréa Lisbôa Kowalski é uma jovem do seu tempo, leitora voraz em mais de uma língua, impenitente perseguidora das palavras, em português ou em inglês, com elas celebrando a cumplicidade de uma devota aos mais belos dos cultos. Psicóloga, sua leitura não se restringe aos temas técnicos do seu mètier. Andréa é uma jovem poeta, como um dia foi Rilke, como um dia foi seu parente russo-polonês, Mayakowski.
Intimista é a arte da poesia. A poesia, como se sabe, exprime-se por metáforas, as fantasias exclusivas do “eu”. É linguagem conotativa por excelência, na medida em que toda criativa ambigüidade do “eu” se expressa por imagens de rico sortimento semântico. Num texto poético, a conotação de cada frase se subordina ao seu contexto mas, antes disso, cada palavra escolhida representa um “rosto próprio”, um “caráter” que, prontamente, estimula a inteligência e a sensibilidade do leitor. Palavras e imagens de retórica esculpem os vagos contornos do “eu” do poeta – vale dizer, dão forma às emoções e aos pensamentos que o povoam.
Todas as ferramentas da composição poética – o ritmo, a rima, a melopéia – trabalham para exprimir o “eu” ondulante do poeta.
Ainda mais “ondulante” quando a autora dos versos é uma bela jovem de múltiplo talento, dona de atributos mais do que literários. Andréa é também a bailarina graduada em cursos de piano e de balé clássico, e a doce proprietária de uma alma sensível ao sofrimento humano: foi uma verdadeira missionária na organização, gerência e monitoramento de Grupos de Apoio e Prevenção a AIDS, em Florianópolis, Santa Catarina.
No começo foram os clássicos, depois os românticos. E, na metade do século XIX, surgiram, na França, os parnasianos e os simbolistas. Os primeiros, restabelecendo o vigor da forma, um pouco abandonada pelos românticos. Os simbolistas, com Cruz e Sousa, voltaram a cultivar as formas, as aliterações e os jogos vocálicos. No início do século passado, os poetas abandonaram a filiação a escolas e passaram a exprimir suas própria técnicas e concepções. A poesia desceu do pedestal. O verso branco, sem rimas, reapareceu como uma revolução da forma – com Mallarmé e com Mayakowski.
Andréa, que possui o saudável espírito visionário de um e de outro, ainda está pesquisando e tateando a sua linguagem poética, a “roupa” com que, ao longo da vida, vestirá as suas emoções em verso. Mas seu “eu” criativo e generoso, já dá mostras de que o campo da poeta recebe sementes poderosas.
Este seu primeiro livro é uma boa mostra do poder da sua poética. Da qual é bom exemplo o poema “Saudade”, verso que atravessa o tempo. “A saudade é coisa simples. Dor daquilo que já foi, mas continua sendo. Aquilo que se foi mas continua aqui (...) A Saudade é a mesma música gravada na alma e cada nota é uma lágrima, cada pausa um inspiro, um soluço no silêncio”.
Como o poeta Mayakowski, Andréa saiu à luta para escolher a sua linguagem poética e nela deixar gravadas as delicadas impressões digitais da psicóloga, da bailarina (como a amiga de Mayakowski, Isadora Duncan), do ser humano que não é indiferente à dor do mundo.
O lugar da poesia é estar onde possa inquietar, despertar emoções, assegurou o poeta catarinense Lindolf Bell. A missão do poeta é deleitar e comover, sugeriu Horácio na sua “Arte Poética”.
Andréa chegou para aprender com esses mestres e ensinar com os vôos livres da sua destemida criação.

MADRUGADA

MINHA VIDA É UM ETERNO DESISTIR
QUANTAS VEZES JÁ TE LIGUEI CHORANDO
NO MEIO DA MADRUGADA?
MEU COPO DE UÍSQUE JÁ NÃO AFOGAVA MAIS NADA
(NEM AS MINHAS LÁGRIMAS)
E EU ATÉ OUVIA UMA MÚSICA QUE DIZIA
"I WAS DROWNING SORROWS
BUT MY SORROWS, THEY LEARN TO SWIM"
O MEU CIGARRO SE EXTINGUIU NO TEMPO
E JÁ NÃO PROVOCAVA NEM TOSSE
(QUANTO MAIS SUSPIROS)
E EU NÃO CONSEGUIA TE DIZER DA MINHA SOLIDÃO
PORQUE OS SOLUÇOS ENCHIAM A LINHA
E A MINHA SALA
E O MEU QUARTO
INTEIROS
EU SÓ TE PEDIA SOCORRO
PORQUE ERA HORA DE AS PAREDES CAÍREM SOBRE MIM
EU TE PEDIA A SALVAÇÃO
REDENÇÃO
ABSOLVIÇÃO
TU NÃO ENTENDIAS
A NOITE IA LONGE
E COMEÇOU A CHOVER
OS PINGOS SENDO AS ESTRELAS
E ELAS, BRILHANDO COMO ÁGUA
OS BURACOS DA LUA NÃO ERAM TÃO GRANDES
QUANTO AS FERIDAS DA MINHA ALMA
DE ONDE ESCORRE UM SANGUE ESPESSO
QUE TU NÃO QUERES PROVAR
POR QUE TU NÃO VENS PRA PERTO
E COLOCAS AS TUAS MÃOS NAS MINHAS COSTAS?
OS MEUS CABELOS
OS MEUS CÍLIOS
E OS MEUS LÁBIOS
POR ISSO EU TE LIGUEI
CHORANDO
É A TUA FALTA QUE ME TRAZ UM ARREPIO
UM TREMOR DE FRIO
NA MADRUGADA QUENTE
É A CONVULSÃO DOS MEUS LÍQUIDOS
A IMPLOSÃO DO MEU DESEJO
A MORTE DE MIM MESMA
TENHO UM CINZEIRO CHEIO
E UMA GARRAFA VAZIA
À MINHA FRENTE
E ESTOU SÓ
MAS EU TE AMO TANTO
QUE PRECISO DORMIR
POR ISSO EU TE LIGUEI
ME FAZ DORMIR...

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